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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Por um olhar



Estava pensando sobre a criação, Deus não criou o homem antes de tudo, mas depois que o céu azul já estava estabelecido sobre a terra, e as árvores, grandes ou pequenas, floridas ou cheias de frutos já tomavam seu lugar em todo o horizonte, e os animais cheio de cores, formas e costumes diferentes, se exibiam pomposos por toda parte e só então, pôs o homem no meio de tudo isso.

Em comparação, temos à nossa volta um trânsito louco, cheio de gente correndo, xingando quando alguém passa cortando, a fumaça da indústria enegrecendo o céu azul da criação.

Por resultado há suicídios, depressão, ansiedade, stress, loucura, a loucura da alma que adoece, adoece ao olhar para fora de si e ver a doença do mundo.

Ah, o jardim do Éden, fotografia da perfeição, a paisagem de total antítese com o mundo de hoje. Deus criou um paraíso à nossa volta, para que o paraíso se estendesse em nosso ser.

“Os olhos são a janela de nossa alma”, Deus já sabia disso, afinal o que há que ele não saiba? E porque Ele sabia que olhar para a criação, a revelação de si mesmo, nos faria melhor do que o mundo é capaz de nos tornar, ele nos envolveu com a sua glória, não com luz, poder e grandeza, mas aquilo que precisávamos ter em nosso ser, doçura, beleza, nobreza e paz.

Mas, mesmo hoje em meio a todo recurso causador de males, ainda há uma noite estrelada, a cada anoitecer, para apaziguar as tristezas da alma, aproximar-nos do autor da nossa paz. E em cada litoral, há um céu que se encontra com o mar, em sincronia e infinitude, desfazendo cada nó que envolve a nossa alma, ou na complexidade das relações, mas que podem nos lembrar ainda sobre o amor e fidelidade, ou o laço e o carinho.

As sutilezas na criação e no cuidado de Deus a nós, já são suficientes para nos pegar no colo, arrastar-nos para longe do que o nossos olhos estão tão acostumados a ver, e então sarar as nossas feridas, recuperando em nós a nossa própria humanidade roubada pela podridão estampada ao alcance dos nossos olhos.

Mas os olhos que vêem numa janela voltada para os céus, ah, esse tem uma alma continuamente resgatada de volta para Deus.

Ariane Machado

domingo, 9 de outubro de 2016

Do início ao fim




Para todo escritor, ou que ao menos tentam, existe uma beleza encantadora na escrita, na criação, no poder de fazer arte. E, não sei se já notaram, mas repetidas vezes eu exalto Deus como autor e escritor. Porque eu tento, miseravelmente, descrever um pouco sobre Ele, e tudo o que Ele já fez foi descrevendo sobre ele mesmo.

“Os céus declaram a glória de Deus”, nos disse o salmista, e assim é. Por mais palavras que usemos, só descrevemos um pouco do que já nos foi mostrado e é mostrado todo dia, desde o nascer do sol e cada manifestação da glória de Deus. E além dos céus, da natureza e toda a criação, a vida anuncia algo. Todo dia, cada vida, de alguma forma anuncia um pouco de Deus.

Eu trago hoje, uma reflexão sobre uma música do Rodolfo Abrantes, que me veio à memória nesses dias, regravada por Gabriel Guedes. E a música consegue andar rapidamente de um polo ao outro do novo testamento, ou talvez, desde a profecia de Isaías sobre o nascimento de Jesus, até a profecia de João sobre a segunda vinda de Cristo.

E ouso fazer uma caminhada um pouco mais cumprida, iniciando em Gênesis. Como já disse, todo dia a glória de Deus é declarada, e desde o início, por sua autoria maravilhosa, seus planos são apresentados à humanidade.

Com início no Éden, na escrita sucinta de Moisés, temos vislumbres do paraíso, a perfeição, onde não havia choro nem ranger de dentes, como também, aperfeiçoado, será na nova Jerusalém. Ainda em Gênesis, vislumbramos num retrato parecido, a espera por um filho prometido, um filho que viria a ser sacrificado, numa amostra de Deus de que suas promessas são cumpridas, e de que é o Deus provedor de resposta e socorro.

Então, num enredo perfeito, Deus aponta para a promessa do céu e a promessa do resgatador. No livro do profeta Isaías, inspirando o compositor dessa música, Deus nos dá com clareza um relato prévio da vinda de seu filho.

"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz." Isaías 9:6


O céu começa a se abrir, o menino que veio a nós, como homem, como menino, viveu entre nós, morreu por nós e abriu o novo caminho para termos acesso ao Pai, retorna. Todo joelho se dobra diante do Maravilhoso Jesus, diante de sua soberania e poder, e a glória ao Príncipe, que não foi dada ao garoto, em vez disso o humilharam, rejeitaram e o mataram, é agora dada. Em sua segunda vinda, não mais para salvar Jerusalém, mas para resgatar a nós salvos, para a Nova Jerusalém.

Depois dos relatos de um paraíso, um jardim preparado para a comunhão entre o homem e Deus, entraremos então pelas portas da cidade, onde haverá não apenas um jardim, mas uma cidade adornada para a eternidade, para a completude do plano de Deus, para a plena comunhão, a concretização de tudo o que os 66 livros da bíblia apontam. Enfim, o encontro real e pleno da noiva com o noivo.

Ariane Machado

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A intimidade que se foi


E de repente nos damos conta de que nossa intimidade com Deus já não é mais a mesma. Batalhas e batalhas travadas, e a gente se dá conta que temos perdido repetidas vezes. A rotina nos vence, nos levando à uma vida de ações automáticas, lembrando apenas do urgente, deixando coisas essenciais para depois, quando se vê, já se foram dias sem buscar a Deus, dias sem nada mais que uma oração rápida, só para “bater o ponto” com Deus, quando na verdade sentimos que nossas palavras nem chegaram ao céu, mas é uma rotina.

E quando a batalha que perdemos é para a procrastinação, o “depois eu faço” torna-se a frase mais recorrente em nosso dia. Vou orar, mas primeiro vou checar o whatsapp e todos os outros meios de comunicação, a oração depois eu faço. Mas agora vou comer, a leitura da bíblia depois eu faço. Já estou atrasada para a faculdade/ trabalho/ escola, as coisas de Deus, depois eu faço, quando chegar, ou antes de dormir. Até que nos sobrem poucos minutos antes que desistamos pela sobrecarga de sono, ou nos lembremos apenas quando os olhos já estão fechados, “então deixa para amanhã”.

Preguiça, falta de prioridades, rotina, descuido, o que seja, a lista de batalhas que perdemos talvez seja imensa, deixando nossa intimidade com Deus em planos cada vez mais distantes. E quando nos damos conta, olhamos para trás e invejamos de nós mesmo esse aspecto da vida que um dia tivemos.

Talvez cheios de saudosismo, estamos lembrando agora como era a nossa vida de oração, a ansiedade que tínhamos em dobrar os nossos joelhos e buscar a presença de Deus. Ou a facilidade que tínhamos em falar com Ele, a naturalidade com que as palavras saiam de nossa boca, a facilidade com a qual elas nasciam em nossos corações. E agora, o quão difícil tem sido articular as mais “bobas” frases, na falha tentativa de falar com o Pai.

O que foi mais importante que ousou tomar o lugar de Deus em nossa vida? O que aconteceu que não notamos quando essa intimidade se esvaiu de nossas mãos?

E engatinhando, tentamos tropegadamente retomar a um relacionamento com o nosso Deus. Mas talvez, tão feridos por essas batalhas, cansados dessa exaustiva rotina, envergonhados pelo abismo que se estabeleceu entre nós e Ele, não conseguimos fazer nada além de clamar por misericórdia e nos perder novamente em tudo que nos afastou do Pai.

O que fazer? Como retornar a Ele? Podemos mesmo recomeçar? Sim, podemos recomeçar, Deus nos dá um novo começo. A ira que sente diante de nosso pecado, ou a tristeza que o toma diante de nosso desprezo, são deixados de lado e dão lugar às qualidades que o compõe. Ele nos olha com amor e com misericórdia, e enquanto há vida, Ele está disposto a nos dar aquilo que não merecemos, não nos vê com os olhos do mundo, olhos que sempre procuram por merecimento, pois seu amor é tão grande. Ele não está disposto a nos perder para a rotina e distrações, e ele não apenas nos aceita de novo, mas nos chama para voltar a Ele, e restaurar a nossa história com ele.

Ele já sabia quem éramos, o quão pecador é o ser humano, e através da morte de Jesus temos um recomeço, seu sangue lava-nos os pecados, mas também a negligência a Ele, e todas as desculpas. Precisamos, claro, querer ter um padrão de vida diferente, não estou dizendo que seja fácil, nem mesmo da noite para o dia. Não vamos passar de “crentes-distantes-de-Deus”, a mestres da intimidade, passando horas diante da presença de Deus, em intimidade, mas precisamos desejar e buscar viver mais do que o que temos vivido.

Precisamos colocar Deus em seu devido lugar em nossa vida, precisamos que Deus esteja no centro de nossas decisões, na posição mais alta que há em nosso coração, ou continuaremos a nos afastar do Pai, e não nos daremos conta da distância que vem se estabelecendo. Se nunca tivemos intimidade com Deus, ainda que nosso íntimo grite, mande mensagens, outdoor e até mesmo sinal de fumaça, seremos incapazes de entender que a falta que nossa alma sente é de Deus.

Porém, Deus não desiste de nós, Ele nos chama, insiste incansavelmente. Mesmo diante de nosso silêncio, mesmo diante de nossas desculpas, Deus deseja se relacionar conosco. E o mais interessante é que toda essa insistência não é porque Ele precisa de mim ou de você, Ele insiste porque sabe que ninguém no mundo tem para nós o que Ele tem; ninguém no mundo se importa conosco como Ele se importa; ninguém no mundo tem os planos de paz e perfeição que Ele tem para nós; ninguém no mundo poderá nos dá a recompensa que Ele promete para nós; ninguém além dele pode preencher o vazio que há em nós; ninguém no mundo insistirá o tanto que Ele insiste; ninguém no mundo nos ama como Ele.

Então, não sei onde ou o que cada um está fazendo agora, mas vamos parar um pouquinho, só alguns minutos, repensar a nossa atual relação com Deus, e dedicar alguns minutinhos a falar com Ele, entrar em sua presença em oração. Na próxima oportunidade lhe cante um louvor, decida adorá-lo, trazê-lo mais para seu dia, trazê-lo de volta para a sua vida.

Ariane Machado

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

E de saudade quer voltar

Supondo que Deus lhes perguntasse porque devem ir para o céu, o que responderiam? Não adiantam argumentos bem articulados se não são do coração, afinal Ele os conhece. Então, o que seria? “Porque entre o céu e o inferno o céu é melhor”, “Porque me esforço em todos esses anos para merecer o céu”, “Porque tenho medo do inferno”, “Porque no inferno haverá dor, e não quero isso”... Se Deus lhes desse a chance de argumentar, seus argumentos seriam suficientes para vos levarem à morada do Pai?

Talvez pensemos muito e ansiemos pelo céu, mas ele realmente não tem sido o assunto em nossas rodas de amigos, nem mesmo no papo pós-culto, também não é tão discutido na escola bíblica dominical, e nem mesmo em nossos púlpitos. E por essa razão Marcela Tais pergunta “Por que pararam de falar do céu?”. E então, por que paramos?

A frase seguinte à essa pergunta é o que creio ser sua resposta, “estamos pensando muito nessa vida daqui”. Alguém disse certa vez que não somos um corpo com uma alma, mas uma alma com um corpo. Nossa carne realmente é terrena e passageira, mas nossa alma vive para a eternidade e ela não é daqui. Recentemente falei sobre a consciência de estrangeirismo por parte dos nossos heróis da fé em Hebreus 11: “A importância de nos declararmos estrangeiros, é que temos consciência de que não somos daqui, por aqui apenas passamos e, portanto, as coisas daqui não nos aprisionam, mas nos importa viver pela fé. ”

Nossa alma tem estado longe de casa. Os nossos anseios espirituais podem ser ofuscados por nossa vida de pecado, por isso muitos vivem sempre com um vazio que tentam, inutilmente, preencher com prazeres mundanos, mas não conseguem entender o íntimo clamor que se tem por Jesus. Da mesma forma acontece com a nossa necessidade de ir para a pátria celestial.

Quanto mais nos envolvemos com o pecado, mais nos habituamos às limitações e imperfeições da carne, e essa familiarização nos leva a calar o clamor do nosso espírito pelo encontro face-a-face com Deus.

Marcela fala que se tivesse asas voaria e deixaria tudo para trás, porque ainda que não tenha visto nada ainda do céu, seu espírito tem saudades de sua pátria. E nós, se tivéssemos a oportunidade de irmos logo hoje, largaríamos tudo? Ou quem sabe, pediríamos para ir na viagem em que Jesus virá nos buscar? Desconsiderando quem talvez acha que a vida tem andado ruim e quer se livrar logo dela. Estamos dispostos a abrir mão do que quer que seja porque estar com Deus, estar no céu, é mais importante do que tudo e é o nosso maior anseio? Ou já temos recebido o título de cidadãos terrestres e, satisfeitos, temos dificuldade de “voar, tudo pra trás deixar”?

Temos nos acomodado ao conforto desse mundo de ansiedade, pecado e dores. O mundo na verdade não é de todo mal, aqui há maravilhas de Deus, e há prazeres que nos foi concedido por Ele, seja nossa comida preferida, uma boa música, ou um ótimo e divertido final de semana, mas tudo isso é passageiro, e isso não deve ser esquecido. Apesar dos prazeres daqui, o que há de vir nunca foi visto, ouvido e nem mesmo imaginado por nenhum de nós e, portanto, é superior a qualquer coisa que já experimentamos (I Coríntios 2:9). Não podemos viver como se esta vida fosse o que mais nos importa, mas devemos ter em nós o desejo pela eternidade.

Na carta aos Filipenses, Paulo discorre sobre o nosso direcionamento ao alvo, alvo esse que é a eternidade com Deus, a pátria celestial, para a qual fomos alcançados em Cristo (Filipenses 3:12 -21). Nossa alma não foi criada para esse mundo em caos, mas para o paraíso, esse foi o plano de Deus para nós desde o início, e por isso, não devemos nos conformar com esse mundo, mas buscarmos a santificação, para calarmos o mundo a nossa volta, e ouvir o anseio de nossa alma em habitar nos céus com o nosso Salvador.

Não digo que já não queremos o céu, todos querem o céu, mas o que nos motiva a esse desejo? Talvez temos visto o céu como uma consequência de uma vida de sábias escolhas e boas atitudes, mas consequências nunca são o foco, e o céu não é isso. Na verdade, é a conclusão do plano da salvação, é o nosso lar, é uma vida plena com Deus, o céu é o nosso alvo, e se ele não tem sido isso, não faz sentido.

Isso não é sobre merecimento, afinal, independente do que façamos ou do quanto nos esforcemos, nunca chegaremos a merecer tamanha graça, mas falo do anseio. O que tem nos movido a trilhar esse caminho de renúncias é o anseio de alcançar a eternidade e estar com Cristo? Se sim, creio que estamos no caminho certo. Senão, está na hora de calar nossa carnalidade, e perceber a saudade que aflige a nossa alma, e o desejo de viver na presença e em louvor ao nosso Pai no lar celestial. 




Ariane Machado